nav-left cat-right
cat-right

Vaso de barro maio 2012...

  VASO DE BARRO MAIO 2012

Maio 2012...

  DIARIO ESPIRITUAL MAIO 2012

  DIARIO ESPIRITUAL MAIO 2012 (DOC)

(Italiano) 5 X 1000...

Articolo non disponibile nella lingua corrente

Visita Dom Odilo Scherer – Jarinu – Mi...

Viagem Missionaria ao Haiti – Mundo e Missao...

Diário 08

Quinta-feira – 1º de março de 2012 – Último dia no Haiti

  Às 15h, entro pela parte nova do aeroporto internacional Toussaint Louverture, recém-inaugurado pelo novo presidente Michel Joseph Martelly. Um orgulho para o povo haitiano. Na entrada, um belo painel de quadros, todos desenhados com pequenas pérolas, como as usadas para fazer colares ou pulseiras. São quadros verdadeiramente bonitos que refletem uma cultura que não é totalmente africana, nem totalmente latina, mas caribenha, ou melhor, haitiana. Uma cultura que deu vida a uma corrente literária do  “realismo  maravilhoso”,  com  expres-

sões artísticas, pinturas e músicas originais, neste país que é o primeiro do mundo a ser independente. Antes de entrar no aeroporto, na rua, observei milhares de pinturas em telas, expostas ao longo de um muro ou penduradas nas árvores. No estacionamento, encontro pequenos camelôs com mais pinturas, mas só tenho dinheiro para comprar pequenas lembranças. A Missão Belém me prometeu trazer um daqueles quadros. A nova entrada do aeroporto é pequena, mas bonita. Aqui, pelo menos, o ar é mais fresco e após os controles rotineiros (tive que  tirar  até  os

sapatos) e a despedida do pessoal da Missão Belém, entro na sala de espera para embarcar na COPA Airline, rumo ao México. Na sala de espera, vejo uma irmã com uma cruz vermelha no lado esquerdo, perto do coração. Deve ser camiliana. Aproximo-me, apresento-me e fico sabendo que é gaucha, Ir. Dulce.  Está no Haiti há 12 anos, como ministra dos enfermos. Quando lhe digo que sou o diretor de Mundo e Missão, ela se ilumina com um sorriso e me confessa que recebia nossa revista, antes do terremoto, e que a lia  com gosto,  partilhando  com  a  comunidade.  Trocamos  algumas

experiências (ela trabalhou na Itália, no Chile e agora aqui no Haiti) e me sinto em boa companhia, pois não gosto de viajar sozinho.
Algumas notícias interessantes para completar o quadro do Haiti:
- na terça-feira, 28 de fevereiro, visitei um posto de saúde e o hospital dos camilianos. Tive contato com médicos dos Estados Unidos, do Chile, da Suíça e do Haiti. Confesso que a médica haitiana que encontrei foi a melhor de todos, pela atenção e simpatia. Onde existe uma congregação religiosa, respira-se outro ar, outro atendimento, uma melhor qualidade de vida, que nos dá mais segurança. Penso que a questão da saúde seja realmente uma prioridade urgentíssima neste país, que viu mais de 40 hospitais danificados e 24 médicos da faculdade de medicina sepultados com estudantes e professores, no terremoto de 2010. É preciso rezar a Deus para não ficar doente;

- o trabalho da Missão Belém continua e algumas portas se abriram nesta semana. No dia 5 de maio, o Núncio Apostólico fará novos batizados em Wharf Jéremie e no dia 24 de junho será inaugurada a nova paróquia, perto do centro da Missão Belém. Já existe um terreno no qual o pe. Gianpietro tinha mandado construir um muro perimetral. Agora é só levantar as colunas e fazer um pequeno galpão, que poderá conter duas mil pessoas. Nada mal, para início de uma igreja, neste lixeiro ao ar livre. A paróquia será dedicada a Notre Dame de la Paix. O pároco atual da paróquia onde está inserida esta área pastoral, animado pelo exemplo dos jovens brasileiros, prometeu celebrar todos os domingos. Estes batizados deram frutos e sacudiram a Igreja e o povo;

- ao mesmo tempo, percebo que há algumas preocupações: um senhor, chamado Martin, ajuda o desenvolvimento do projeto do pe. Gianpietro. Ele é jovem e versado em línguas (fala até português) e foi o primeiro que acolheu a Missão Belém, prontificando-se a achar o terreno e legalizá-lo. Praticamente, hoje ele é o coordenador haitiano, que abre muitos caminhos

também perante as autoridades públicas. A preocupação do padre é que todos os projetos estrangeiros que tinham um coordenador local, como o da ir. Marcela, religiosa italiana que construiu uma creche, o dos coreanos e outros, suscitaram inveja de alguns do povoado e foram mortos. Haverá problemas também para Martin? É uma grande preocupação. Talvez a solução seja criar uma associação de bairro e colocá-lo como responsável, e não como aliado aos “estrangeiros”, para mostrar ao povo a bondade e a transparência do projeto, já que a inveja está ligada à questão do dinheiro. Após o sismo, todos os “brancos” são vistos como ricos, cheios de dinheiro para ajudar o povo e muitos não sabem distinguir uma ONG (que tem verbas) de uma missão católica (que vive da caridade dos outros e não tem tanto dinheiro como eles acham). Muitos pensam que os coordenadores haitianos, que fazem a mediação com os estrangeiros, recebem algum benefício e enriquecem a custa dos pobres, por isso são eliminados. É uma visão totalmente distorcida da realidade. Um exemplo concreto aconteceu ontem, quando Roberto e o

padre se encontraram com um “delegado”, tipo de subprefeito, para pedir um projeto de limpeza do canal de esgoto que passa no meio dos barracos. Logo o delegado elevou o preço da operação que a Missão Belém deverá custear. Sabem quanto? 120 mil dólares! Estes são alguns dos problemas que se enfrentam na tentativa de ajudar um povo que sofre.
Hoje de manhã, antes de sair, celebramos uma bela Missa de agradecimento e de pedido de graças e de luzes para saber como se comportar e que caminho trilhar.
Saio do Haiti chocado pela realidade encontrada, admirado pela coragem  da  Missão  Be-

lém, surpreendido por tantas realidades novas e algumas experiências pessoais que senti na pele, ao vivo e em cores. Mas, em tudo senti o amor de Deus que me acompanha, justamente com os amigos que colocou ao meu lado nesta viagem: pe. Gianpietro, as irmãs da CRB, o Roberto e a Olga, que vão ficar ainda um tempo por aqui, os meninos da Missão Belém, particularmente os recém-chegados brasileiros, que ficarão com este povo, no lixeiro de Wharf Jéremie, Diogo, Junior e Sandra. Bon chans amis! Boa sorte amigos!
Que a leitura deste diário, que só conseguiu passar algumas pinceladinhas da grave realidade sociopolítica haitiana, possa despertar mais respostas de pessoas, de jovens missionários, de padres diocesanos, dispostos a virem do Brasil para cá, para partilhar, sofrer e ressuscitar com o povo haitiano.

………………………………………………………………………………………

Diário 07

Segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Hoje de manhã, visitamos o trabalho das irmãs brasileiras do projeto Haiti, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). Fomos com ir. Vera, baiana, e ir. Marcela, sergipana, ao grande acampamento no sopé das montanhas, onde vivem milhares de pessoas em tendas da ONU e do Unicef, ou em casas de madeira (tipo tapume, mais grosso e tratado), que tem três anos de durabilidade. Algumas são bem pintadinhas e até parecem de alvenaria.
Ir. Vera me surpreende com sua espontaneidade, entrosamento com o povo e com as mulheres, às quais ensina elementos básicos para culinária, corte e costura,  trabalho  comunitário.  É

edificante ver o povo unido, as mulheres se organizando em grupo, fazendo cozinha comunitária, colocando à disposição suas casas e seus espaços. Tudo é baseado no voluntariado. Encontramos uma jovem haitiana, jornalista, chamada Exilene, cujo sonho é o de se candidatar na política.

Aqui tudo é precário: não existe energia elétrica, a água é paga e me pergunto: onde estão os quase dez bilhões de dólares prometidos pelos países e instituições internacionais no famoso encontro do dia 31 de março de 2010? Ah, já sei! Estava me esquecendo: estão nos bancos, bem seguros, gerando juros. Não é revoltante?
Gostaria que a próxima reunião dos “G20″ fosse feita neste acampamento…
Depois desta rápida visita, fomos conhecer o centro da cidade: a Catedral, da qual só restam  os  muros  perime- 

trais, o Palácio do Governo, com a cúpula toda inclinada, prestes a cair, a Igreja do Coração de Jesus, aquela famosa que ganhou a capa da nossa revista de março 2010, mostrando o crucifixo intacto, e, finalmente, o lugar onde morreu a dra. Zilda Arns. Aí, recolhemo-nos em oração profunda, e debaixo de um sol escaldante, no meio das ruínas (aliás, sobrou só um pedacinho de piso), rezamos emocionados e pedimos que surjam outras dras. Zildas aqui no Haiti, e que a Pastoral da Criança possa receber subsídios.

É meio dia. No lugar da igreja do Coração de Jesus, totalmente desmoronada, uma grande tenda aberta, muitas pessoas rezam, acompanhadas por uma música de fundo. Alguém levanta os braços em sinal de súplica e de louvor. Curiosidade: aí perto tem a gruta de Nossa Senhora de Lourdes, com Maria olhando para o lado direito. Na hora do terremoto, ela virou e ficou nesta posição, olhando na direção de uma creche onde todas as crianças morreram. É algo que nos impressiona fortemente.

Ave Maria, cheia de Graça, o Senhor está contigo. Magnificat: “Mari de Kousa: Nammmwen ap fè lwamy pou Granmèt la, lespri mwen Kontan nan Bondye sovè na”.
A minha alma engradece o Senhor e exulta o meu Espírito em Deus meus Salvador!

………………………………………………………………………………………

Diário 06

Domingo, 26 de fevereiro de 2012

Hoje cedo, levantei-me e, com o Paulinho, da Missão Belém, nosso motorista, Roberto e Olga, uma leiga consagrada vindo de São Paulo, fomos até Wharf Jéremie. Passando pela cidade, mesmo sendo domingo de manhã, a movimentação e o trânsito são os mesmos, nada de diferente dos dias da semana. A única coisa que diferencia é ver tanta gente com a Bíblia nas mãos, bem vestida, indo num dos muitos cultos das igrejas evangélicas. No caminho encontramos até um desfile de uma escola, com banda, como nas comemorações de 7 de setembro, no Brasil, mas em menor número de participantes. Cada vez mais me convenço que o povo haitiano é tenaz e religioso, criativo e artístico. Às 9h, chegamos ao centro do Wharf Jéremie Aproximando-nos, vejo mães e pais levando suas crianças para serem batizadas, todas bem vestidas, com roupas brancas, enfeitadas como noivas e os pais, alguns de pale-

letó gravata, outros de camisa branca, e as mães todas elegantes. Não dá para acreditar que eles sejam os mesmos que moram naqueles barracos que conheci na procissão de sexta-feira. Tudo parece transformado. A cerimônia, com dezenas de batizados, tem momentos muito tocantes: as palavras do pe. Gianpietro, que salienta como a Missão Belém é pobre como eles e que moram em barracos como eles, os cantos bem executados e a participação bem comportada e compenetrada.

Dá para ver nos olhos dos pais e das crianças tantos sofrimentos, pois os sorrisos são poucos e as expressões dos rostos, às vezes, de preocupação. Mesmo assim, acreditamos na força da Palavra que, aos poucos, irá transformar este lugar. Muitos destes pais são evangélicos, assim me explica o pe. Gianpietro, mas foram visitados e acompanhados pelos missionários e pediram o batismo para seus filhos. Algo está mudando. Na hora do batismo, eu também administro o sacramento para ajudar o padre, e digo, segurando a fórmula na mão: Muenn batize u,  o nu Papà, ac Pitit la, ac Lespri sem an, Amén (Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém). Nunca, na minha vida, batizei em crioulo e trinta de uma só vez! É realmente um momento de graça!

No final, há biscoitos, balas e sucos para todos. Coisas simples, mas que ajudam a criar amizade, fraternidade, confiança recíproca, pois, no meio desta miséria, existem invejas e ciúmes.
À tarde, pe. Gianpietro corre a um hospital, mantido pelas irmãs de Madre Tereza de Calcutá, para batizar uma criança em perigo de morte. Gostaria de acompanhá-lo para conhecer a realidade, mas o cansaço tomou conta de mim.

Um menino da missão me pergunta o que foi este dia. Acho que a palavra mais certa é: foi o dia da graça, que age e transforma independentemente da gente. Os missionários se doaram muito para este batizado e agora que tudo deu certo uma alegria profunda toma conta de todos.
Antes do por do sol, subo na torre das caixas d´água, de 10 metros de altura, e daí contemplo mais uma vez o triste cenário. Não tenho nem coragem de tirar fotos, pois me parece estar invadindo a intimidade deles, já tantas vezes violada, talvez para  mostrar  a  realidade  e

pedir ajudas. Uma criança me avista e grita: O yu, grangou… (Ei, você, tenho fome…). Coloco logo a minha mochila com a máquina fotográfica nas costas e desço rápido pela escada. Quero desaparecer para não escutar mais este grito de dor.

………………………………………………………………………………………

Diário 05


Sábado, 25 de fevereiro de 2012

Hoje fiquei em casa esperando Yves, um sindicalista de Porto Príncipe, amigo do Roberto, que deverá nos levar à cidade para conhecer o centro, mas, sobretudo escutar o projeto no campo da saúde para Wharf Jéremie, pois o Roberto pretende envolver várias pessoas influentes da cidade e não poderá faltar a força popular dos sindicatos. Tínhamos marcado às 8 h, mas chegou às 14h. Assim é na missão: o homem propõe e Deus dispõe. Fico em casa descansando um pouco, lavando roupa, limpando os quartos e conhecendo os meus  visinhos

que moram  nestas  casinhas de meia água, construídas pelo pe. Giuseppe. Conheci um casal da Caritas italiana, que há dois anos está aqui com duas crianças pequenas; ele, Davide, de Torino, e ela, Ana, de Sanremo. Depois mais duas jovens, sempre da Caritas italiana, outra italiana e outra brasileira envolvida numa ONG, um voluntário da Bélgica, o jornalista Marcos Bello, que já tinha conhecido duas irmãs Dominicanas para ajudar num projeto de economia solidária, dois ortopedistas equatorianos e, finalmente, as cinco irmãs do projeto da CRB, que há um ano e meio estão aqui. Mais uma força brasileira a serviço da missão. Três delas estão em Santo Domingo para participar de um encontro promovido pela Clar (Conferência dos Religiosos da América Latina), sobre sustentabilidade, e duas ficaram em casa: ir. Iolanda, catarinense, e ir. Aparecida, mineira, de 79 anos de idade, que me mostra orgulhosa os trabalhos de renda que consegue realizar com as mulheres pobres.
À tarde, conheço o sindicalista Yves, acompanhado pela esposa. Um casal cativante e cheio de vida. Roberto, da Fundação Getúlio Vargas, espera muito dele e lança-lhe até um desafio: candidatar-se 

para a Presidência da República, para coordenar as forças sindicais como força popular, para que o poder não corra o risco de se distanciar do povo e virar uma ditadura disfarçada de democracia, como está acontecendo em outras nações da América Latina. Ainda mais que na bandeira haitiana está escrito que é “a união que faz a força”. Percebo que quando a gente toca este lado patriótico os olhos dele se iluminam e me apercebo que toquei num ponto muito importante capaz de alavancar a força popular. Depois deste diálogo, aventuramo-nos no meio do mercado para comprar um

pouco de verdura: antes de tudo pão, depois tomates, coco, bananas, mangas e batata doce. É uma aventura que tem o seu lado divertido, sobretudo na hora de pagar, para entender o preço em criolo, já que a língua francesa é conhecida só por quem a estudou. Como sempre, a pechincha do Roberto ganha sobre todos, e, com pouco dinheiro, conseguimos levar para casa uma boa mercadoria. Retornando, pe. Giuseppe nos convida, muito gentilmente, a jantar com ele em sua casa. Aceitamos de bom grado. A janta é regada com cerveja e sorvete caseiro. Vocês podem imaginar a alegria… Ele nos fala também do dia do terremoto e da dra. Zilda Arns, que estava hospedada justamente em sua casa. Na hora do terremoto, ela estava deixando o prédio da paróquia do Sagrado Coração de Jesus, na cidade, onde tinha feito uma palestra e estava se atrasando a entrar no carro, pois um seminarista tinha-lhe pedido um autógrafo. Aquele minuto de espera na escada foi fatal. Mais uma vez, penso no valor da caridade que nos faz acolher o irmão

ao ponto até de dar a vida. Não disse Jesus que não existe amor maior daquele que dá sua vida? Dra. Zilda representa este amor maior. Espero poder visitar esta igreja, que representa um símbolo de fé e de doação.
À noite, conhecemos as outras irmãs do projeto da CRB que, voltando do encontro de Santo Domingo, empolgadas nos contam as novidades, sobretudo sobre os projetos que a Igreja, através dos vicentinos, está fazendo em várias missões pobres do mundo, e nos colocam a par de suas maravilhosas descobertas. Torcemos juntos para que aquilo que foi aprendido e aquilo que deu certo em outras partes do mundo possa dar certo também aqui e o povo consiga viver na justiça e na paz.
Amanhã será um dia importante, com os primeiros 77 batizados em Wharf Jéremie. Vou me despedindo com a certeza que amanhã terei muitas coisas boas para contar. Resta sempre o compromisso de  encontrar  for- 

ças humanas para virem aqui e levar para frente estes projetos no meio de um povo que, conforme diz pe. Giuseppe, é honesto, trabalhador e bom.

………………………………………………………………………………………

 

Diário 04


Sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Hoje, acordei após a primeira noite passada em Wharf Jéremie. Dormi num colchonete, em companhia dos maiguen (pernilongos) e embalado por cânticos de louvor durante toda a noite. Ouvia, de vez em quando, a palavra Jezi (Jesus). Descobri, depois, que era uma igreja evangélica, a 300 metros da creche onde estou, que passou a noite toda em vigília: Igreja de Deus da fé de Jesus Cristo. Lembrei-me do Evangelho quando Jesus disse: “Quem não é contra nós, é por nós”. Logo cedo, aproveitando da calma do dia, tomei café e let com os missionários, e com muitas mush (moscas),

que gostam de nós. No lugar de pão e manteiga, biscoitos, crackers e panettone que sobrou do Natal. Agora tenho clareza sobre o grupo e suas funções: Renata, responsável pelo centro, Marcelo, Vanessa e Paulinho responsáveis pela evangelização nas casas e Cacilda, a coordenadora geral: todos eles estão aqui desde o começo. A esses, associaram-se os novos com quem viajei: Diogo, Junior e Sandrinha, todos de São Paulo. O centro-creche em que estou é dedicado a Markenson, uma criança que foi entregue sem vida nos braços do pe. Gianpietro, na sua primeira visita, e que foi enterrada no lixo, pois por aqui não existe um metro quadrado de relva. Hoje, con-

heci a mãe de Markenson, que agora participa da comunidade. Os missionários explicam queaqui as crianças não valem nada. Quando a família se reúne para comer, primeiro come o pai, depois a mãe e, se sobrar, as crianças. A nova sensibilidade para com elas é trazida pelos missionários e agora se percebe que são tratadas com dignidade e prioridade.
Pe. Gianpietro me explica que aqui havia um grande mangue e a área foi aterrada com mais de 500 caminhões de escombros do terremoto. Depois, foi jogada uma pedra redondinha que embeleza e dá um tom de limpeza e ordem ao centro, que o povo chama carinhosamente de “escola das irmãzinhas”. Hoje, ampara 180 crianças e 40 mães, mas a previsão é atender 400 crianças e 200 mães.

Estamos a um quarto do projeto e falta ainda muito para terminar, inclusive a igreja, que ainda não existe: o total da construção compreende 5 mil metros quadrados. Futuramente será paróquia, pois o núncio apostólico quer que este povo tenha um lugar onde celebrar e viver a fé. Pe. Gianpietro olha comovido esta construção. Apenas um ano atrás não tinha nada de nada. Os missionários viviam num barraco, sem nenhuma privacidade e sempre rodeados pelas crianças, vozerios, calor e muita gente pedindo alimentação. A palavra mais usada por aqui é grangou, fome. Eu mesmo a ouvi no primeiro dia, após a Missa, indo para a creche. Uma pessoa olhou para mim, homem branco e, portanto, com dinheiro, apontou a barriga com a mão e gritou: grangou.

Logo após o café, encaminhamo-nos para uma sala que é uma capela. Estão reunidos os funcionários da creche, professores, cozinheiras, algumas criancinhas, para a reza cotidiana do terço, a leitura do dia e cada qual deve fazer o seu “diário espiritual”.  Uma breve exortação do missionário, que se torna uma catequese (depois, todas as mães terão uma hora de catequese, a cada dia) e, no final, cada um diz o propósito do dia. Hoje, todos falam com espontaneidade, mas, no começo, não era assim, explica-me pe. Gianpietro. Mais um fruto  da  evangelização.

Eles, então, colocam em comum os propósitos. Capto alguns: confiança, amor, sacrificar-se para o irmão, etc.. Este momento, feito todos os dias, dura 40 minutos e ninguém abre mão. Depois, cada qual no seu trabalho. Um grupo de mulheres fica na capela para ensaiar os cantos, pois domingo terão os primeiros 77 batizados no Wharf Jéremie. Será um grande acontecimento.
Logo em seguida, pe. Gianpietro e ir. Cacilda vão visitar o pároco, pe. Price, que mora a cerca de uma hora a pé, e que não tem como cuidar desta parte. A visita é para levar-lhe um presente que ele mesmo havia expressado desejo de ter: uma imagem belíssima de Nossa Senhora, trazida do Brasil (aquele pacote com escrito FRÁGIL, que eu pensara ser uma geladeira). Os meninos, com muito cuidado abrem o pacote, tiram o isopor e, finalmente, aparece Nossa Senhora, ainda embalada num plástico-bolha e fita adesiva transparente. Logo pe. Gianpietro exclama: “Agora ela vai cuidar do resto!”. É incrível a sua fé e confiança em Maria, a mãe de Jesus. Agora as crianças estão chegando e o centro se anima de cantos, vozes, gritos e também o sol aparece querendo sua parte, lançando-nos raios calorosos de boas vindas. Um novo dia, uma nova esperança.

Às 10h30, vamos pela bindoville fazendo uma via-sacra. Será um modo concreto de anunciar Jesus no meio deste povo sofrido. Tudo está bem preparado: a cruz, os cantos, as orações impressas num livrinho que todo mundo aprecia e quer (infelizmente, temos poucos exemplares) e até uma caixa de som, a bateria e um microfone que está sendo usado por uma menina cuja voz maravilhosa encanta a todos. A via-sacra se desenvolve pelas ruelas da favela, passando entre os barracos de lata e de lona doadas pela ONU, que transformam a habitação num forno. Pelo caminho, esgoto ao ar livre, bem perto das moradias, numa total falta de hi-

giene e de saneamento básico. É uma cena que impressiona profundamente. Já andei bastante pelo Brasil e pelo mundo afora: conheci a Guiné-Bissau, na África, um dos países mais pobres do mundo; estive nas favelas de Calcutá, na Índia; passei por Bangladesh e Camboja, mas nunca vi coisa igual. O que surpreende é ver o povo que, ao passar a via-sacra, sai na rua, reza o Pai-Nosso e a Ave-Maria, mesmo se a maioria é evangélica. Ninguém ri ou acha graça, nem manifesta um sinal de contrariedade. Todo mundo participa, canta; alguns param, passam, mas o grupo continua firme, sempre com a presença de muitas crianças.
Fico muito tocado e comovido pela Missão Belém e pela vivência destes jovens brasileiros junto aos mais pobres dos pobres. Aqui há necessidade de tudo. Primeiramente, precisa-se de missionários/as, gente desprendida, corajosa, disposta a se doar, a privações, a tudo. Precisa-se de muita obra social: saneamento básico, escolas, hospitais, cursos profissionalizantes, indústrias, educação à cidadania, aos valores morais, e, portanto, precisa-se urgentemente de evangelização.
Quem estará pronto a vir para cá?

………………………………………………………………………………………


Diário 03

 

Quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


Começa um novo dia e, levantando, canto: “Um novo dia, uma nova esperança, posso recomeçar”. O meu coração ainda está cheio do encontro de ontem com o povo de Wharf Jéremie. Lembrei-me que, quando desci do carro para celebrar a Missa no bairro, uma senhora saiu da barraca de lata e, aproximando-se, deu-me um beijo. Fiquei surpreendido e os missionários também, já que o povo não se abraça e não se beija na rua. Redi, redi lavi a pa fasil zanmi, papé papé gran fré ou la. Assim o nosso povo canta: “Força, força, a vida não é fácil, amigo, nada  de medo, seu grande irmão está aqui”. Na bandeira do Haiti está  escrito
Bandeira do Haiti

em francês: “L´union fait le force”, “A união faz força”. É justamente isso que a Igreja, com muito esforço e doação, está fazendo. Por isso, nesta manhã, partimos rumo à nunciatura apostólica do Haiti, para apresentar os novos missionários que chegaram do Brasil e pedir o apoio ao novo projeto em Wharf Jéremie de um possível hospital, cujo projeto Roberto, da Fundação Getúlio Vargas, está fazendo. Estas palavras do canto e a frase da bandeira nos ajudam a irmos com coragem e confiança. E, eis a primeira surpresa.! Bem na subida do morro, um dos pneus do carro onde estamos furou. Imaginem a aventura que é trocar um pneu numa subida… O pe. Gianpietro e ir. Cacilda prosseguem de moto táxi, enquanto tentamos consertar. Cerca de uma hora depois, Roberto e eu pegamos também uma moto táxi e fomos até a nunciatura, que se encontra num lugar encantador, com uma vista fantástica do Haiti e do mar do Caribe. É um  pedaço  do  paraíso

que saboreamos antes de descer novamente aos “infernos”. O núncio, mons. Bernardito Auza, é filipino e já conhece o Pime. Acolhe-nos muito bem e, mesmo tendo chegado ao final do encontro com o pe. Gianpietro, ele troca algumas palavras comigo. Peço-lhe que apóie a Missão Belém e entrego-lhe uma revista Mundo e Missão de março, a qual ele aprecia pois tem a foto do pe. Fausto Tentório, mártir do Pime nas Filipinas. Impressiona-me quando ele afirma que 70% das crianças no Haiti estão desnutridas e que o papel das escolas tem sido, sobretudo, de proporcionar-lhes uma alimentação básica, pois elas chegam cansadas e com fome. As escolas dão o café da manhã e também o almoço. Mais de 90% das escolas são particulares e muitas estão nas mãos da Igreja católica que está fazendo muito para a educação. Só  7%  são

do governo. Outro problema, agora, é que mais de 40% das verbas dos doadores para a alimentação serão cortados, segundo anunciou o presidente, pois considera que já passou a emergência do terremoto e que não estão precisando mais! Outra urgência: a saúde das crianças. Os padres passionistas têm um hospital chamado São Damião, mas um novo hospital infantil seria muito bem-vindo. Por isso, Roberto apresenta ao núncio o projeto detalhado que trouxe do Brasil, já traduzido para o francês.

Em seguida, descemos do Tabor até o lugar onde tinha quebrado o carro, para voltarmos a Wharf Jéremie. Qual a surpresa ao encontrarmos o carro ainda quebrado, pois a embreagem também estorou e tivemos que esperar outro carro para guinchar. Já passou do meio-dia e uma certa fominha começa a aparecer… Assim posso sentir um pouco o que o povo vive cotidianamente. Ainda bem que tenho uma bolacha do avião, que deixei na mochila em caso de emergência. Agora está sendo útil. Vamos esperar com paciência. Enquanto isso, Roberto vai até o Min. da Indústria e do Comércio para dar continuidade ao projeto do hospital. Estamos torcendo para que tudo dê certo e este hospital possa sair do papel!
Finalmente, às 13h30, conseguimos uma  solução,  já

que o carro que veio para guinchar não deu certo. Deixamos o carro estacionado na rua e fomos direto à Embaixada do Brasil encontrar os outros, para irmos com o Roberto falar com o Ministro, já que a união faz a força. Aproveito para trocar alguns dólares em moeda local e, no supermercado, compro um pão para o lanche, pois já são três horas da tarde e nada de almoço. Chegando na encruzilhada onde nos esperava o pe. Gianpietro, encontro o jovem missionário Marcelo e juntos vamos ao pequeno, mas agradável, Shopping Center, totalmente reconstruído após o terremoto, onde encontramos o sr. George Barau Sassine, sentado com o Roberto, com um belo copo de cerveja gelada e fumando um charuto de marca. Ele nos convida a tomar  um  lanche  e  bebida  à

vontade, tudo por conta dele. É um sinal claro da providência e do amor de  Deus. Eu  estava  tão preocupado com o almoço e agora chega também a janta… Ah, que gostoso finalmente, após três dias neste calor, beber uma Sprite geladinha e comer um lanche caprichado! O discurso é interessante e descubro que ele não é o ministro, mas o diretor executivo de um projeto com industriais, para criar uma zona franca no Haiti, com novas indústrias, proporcionando, assim, novos postos de trabalho. Ele se interessa pelo projeto do pequeno hospital infantil e  promete  vi-

sitar Wharf Jéremie, neste domingo, que ainda não conhece, mesmo morando em Porto Príncipe. Ele nos conta que tem uma filha na Bélgica e um filho nos Estados Unidos. É uma boa pessoa, que nos abre uma esperança.
Voltando a Wharf Jéremie e celebrando a Eucaristia com o grupo da missão, agradecemos de coração ao Senhor pelo dia de hoje. Iniciou com um imprevisto e terminou com uma graça . Comento com os meninos que, pela lógica pascal, vai bem, quando vai mal! Uma bela meditação vital e experencial neste começo de quaresma.

Hoje à noite, dormirei na creche de Wharf Jéremie. Não tem colchão, mas um papelão faz as vezes. É assim que faz este povo da Missão Belém e como fazem os pobres, não por escolha, mas por necessidade. Pelo menos por uma noite vou me solidarizar com eles. Que bela a minha quaresma no Haiti


………………………………………………………………………………………

 

Diário 02


Quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Haiti é a nação mais pobre das Américas. Ainda sente os efeitos das sanções econômicas sofridas na década de 1990 e em 2004, após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide. Desde junho de 2004, foi criada a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), chefiada militarmente pelo Brasil, para colaborar com a segurança interna do país.
Em 12 de janeiro de 2010, o país foi atingido por um violento terremoto de 7 pontos na escala Richter, que devastou 70% das constru-

ções da capital, Porto Príncipe. A tragédia afetou mais de 3 milhões de pessoas e deixou cerca de 250 mil mortos, entre os quais 20 brasileiros, incluindo a médica Zilda Arns,  fundadora da Pastoral

da Criança, que estava em missão humanitária no país.  Esse desastre gerou uma mobilização mundial, reunindo forças da ONU, dos Estados Unidos, da União Europeia e de outros países. Em outubro de 2010, a Minustah já reunia 58 países, 11.797 soldados e policiais, dos quais 2.194 brasileiros, num esforço maciço para atender a população haitiana flagelada. Chega uma soma de 10 bilhões de dólares para ajudar a reconstrução do país, que poderá demorar até dez anos. Deste montante, só dois milhões chegaram à destinação, pois o restante ficou bloqueado nos bancos! Após o terremoto, ocorre a epidemia de cólera, que até novembro de 2010 havia registrado dois

mil mortos e mais de 80 mil pessoas infectadas. No Wharf Jéremie,  onde se desenvolve a Missão Belém, dizem que a doença já matou mais que o terremoto.

Dados gerais
Área: 22.700 km2 (corresponde ao estado de Alagoas). População 10,2 milhões (2010).
Capital: Porto Príncipe, (três milhões de hab. na grande capital).
Sociedade: 96% afro-americanos e eurafricanos, 3% europeus, outros 1%. Idiomas: crioulo,   francês. Religião: 95,3% cristianismo (71,5% católicos, 14,5% protestantes e 9,7% outros).
Governo: República. Presidente atual: Michael Martelly, ex-cantor, eleito em 21 de abril de 2011, sucedendo a René Préval.
Moeda: gourde. Um dólar corresponde a 40 gourdes. Com 5 gourdes compra-se três saquinhos de água geladinha na rua ou pode-se pagar o transporte de taptap (tipo van); com 15, paga-se uma passagem do ônibus circular; com 25, uma latinha de leite concentrado vindo de Israel e com 45, uma lata de leite em pó ou um pão de forma.
Analfabetismo: 40%.
Saúde: 0,3 médicos para 1.000 hab., 0,8 leitos no hospital para 1.000 hab., doenças: cólera, tuberculose, malária, Aids. social mundial.
Índice social: 74º lugar na escada

(Dados:
www.brh.net - Banque de la République d´Haiti)


Hoje, levantei às 6h para aproveitar o ar fresquinho, rezar e trabalhar um pouco, selecionando informações preciosas para o diário e o serviço especial que sairá em Mundo e Missão. Logo encontrei um jovem, Marco Bello, que se aproximou, falando-me em francês, depois em português e, no final, descobri que é italiano como eu e falamos na língua mãe. Interessante: ele conhece o Pime e já escreveu matérias sobre o Haiti para Mondo e Missione (revista do Pime, na Itália), inclusive o serviço especial para a edição de janeiro de 2011! Como o mundo é pequeno! Ele está aqui ajudando em projetos sociais e já trabalhou no Brasil, também. Realmente, a missão aproxima as pessoas de um modo incrível!

Às 6h30, os trabalhadores da obra de construção do pe. Giuseppe estão chegando. Às 7h, noto uma movimentação ao redor de uma pickup e um falatório alto. Dá a impressão que estejam brigando, mas é o modo típico das pessoas falarem. Estão recebendo o café da manhã antes do trabalho. São cerca de 30 homens. O café consiste em pão com bananas e ovos, ou spaghetti e sardinha. Característico é o tonton, feito com uma fruta tipo fruta-pão, amassada, cozida e regada com molho de pimenta. Para os pobres, é a única refeição do dia. Para os trabalhadores daqui, ao invés, lá pelo meio dia, receberão outra refeição, às vezes com arroz, feijão e salsichas, ou outro tipo de carne, quando tiver.

Vejo uma torre, deve ser a igreja do seminário. Vou em sua direção, pois quero rezar um pouquinho. Afinal, hoje é quarta-feira de cinzas. A igreja ainda está fechada e do lado de fora tem uma missionária da Missão Belém rezando. Isso me edifica. Eu também procuro um lugarzinho para me concentrar, olhando para a porta como se fosse um sacrário. Após alguns minutos, um senhor se aproxima e me cumprimenta. Com o meu pobre francês, entendo que é um padre e está abrindo a igreja. Assim, entro para rezar. O padre se aproxima, novamente, e me convida a celebrar, mostrando-me a sacristia.
Falando melhor com ele, entendo que é o arcebispo da diocese, dom Guire Poulard, recém-nomeado, pois o anterior morreu debaixo dos escombros do terremoto. É uma pessoa simples e acolhedora, e com ele terei um encontro à parte; assim me prometeu o pe. Gianpetro. Poderei entrevistá-lo e terei bastante material útil para a nossa revista. Ele mora neste edifício que, agora, entendo não ser só seminário, mas também casa episcopal e de apoio para os/as religiosos/as e voluntários/as que aqui chegam para ajudar. É um ponto de referência neste momento, no Haiti.
À tarde, vamos conhecer, finalmente, a missão em Wharf Jéremie, a bidonville (favela) onde a Missão Belém está fazendo  o seu  tra-

balho missionário, desde 6 de novembro de 2010, com o projeto de uma creche capaz de abrigar 500 crianças, de 1 até 11 anos, juntamente com as mães, além do projeto de evangelização dividindo este grande bairro-favela em 14 setores, cada qual com sua escolinha, que servirá também como centro catequético. Um projeto ousado, no qual o pe. Gianpietro acredita piamente.
“Wharf” quer dizer “porto”: era o lugar onde atracavam os navios; “Jéremie” é uma cidade do interior, onde era produzido o carvão, carregado depois nos navios juntamente com outras mercadorias. A  primeira imagem, para quem chega, é  de  um formigueiro  de pessoas,  sacos   de

plásticos para vender, tirados do lixo, crianças, carros caindo aos pedaços, homens puxando pesadas carroças, carneiros, galinhas, cachorros e, sobretudo, porcos revolvendo o lixo à procura de algo para se alimentar. O povo vive em “casas”, chamadas kay, feitas de latas (folhas-de-flandres), diante das quais os barracos das nossas favelas parecem “mansões”. Existem kays de 2m2,  fechadas com latas enferrujadas, o piso de chão batido, ou melhor, de lixo batido. São autênticos fornos, debaixo deste sol e calor. Não há igrejas onde o povo possa se reunir para celebrar a Missa ou rezar. A igreja paroquial é distante mais de uma hora, e assim, as pessoas acabam frequentando igrejas evangélicas, protestantes ou templos vodu, que se encontram em todo canto. Wharf Jéremie está localizada em cima de um imenso lixão, onde desembocam também oito canais de esgoto, vindos dos bairros da cidade. Neste local, a cólera matou mais que o terremoto.
O primeiro trabalho da Missão Belém teve início em maio de 2010, logo após o terremoto, através de visitas às casas e barracos, sempre repetindo Alà kontntemant… (Felizes vós, pobres…) e o

povo respondendo Ak Jesi tut vai bien! (Com Jesus, tudo vai bem!). Hoje, chegamos justamente neste lugar, perto das três da tarde, atravessando uma cidade caótica, poluída e disseminada pelo lixo. Logo à entrada, impressionam-me as duas únicas torneiras de água potável e uma multidão com baldes para levar aos seus barracos o precioso líquido, ou até para tomar um rápido banho à vista de  todos.  Entramos  com  a pickup emprestada pela diocese. Tem-se a impressão de chegar num lugar de escombros. Paramos e, debaixo de um telhado todo esburacado e sustentado por quatros paus de madeira, celebramos 

a Missa de quarta-feira de cinzas, com imposição das cinzas. E aí acontece o milagre! O povo chega aos poucos (contei mais de cem pessoas, na maioria crianóa, naquele espaço estreito). Os missionários da Missão Belém entoam cantos animados, aos quais o povo corresponde com uma voz maravilhosa e uma animação fora do comum. Como eles gostam de rezar e de cantar! As pessoas que passam pelas ruas e vielas param, observam, rezam, cantam, sorriem; alguns ficam, outros vão embora. As crianças me conquistam, definitivamente! É uma Missa maravilhosa, como nunca tinha celebrado, com uma participação que comove a todos. Na hora da imposição das cinzas sobre todos, observo que Roberto, um leigo da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo, que nos acompanha, está chorando. É uma alegria que, mesmo numa pobreza que beira a miséria absoluta, contagia a todos. Dá vontade de ficar por aqui, pois não há padres que possam  se  ocupar  deste

povo e esta é a grande tristeza do pe. Gianpietro. No Brasil, e em São Paulo, há tantos padres! Se se encontrasse pelo menos dois para virem aqui seria uma evangelização ad gentes de primeiro anúncio. Eu vou me candidatar!
Após a Missa, o povo não está cansado e continuam cantando, dançando, sorrindo, levantando as mãos ao céu. Toca-me, em particular, uma senhora que comungou (praticamente a única que estava preparada e catequizada), e que depois voltou para sua casa dançando de alegria na rua, numa alegria que transbordava do seu ser. Que lição! Em seguida, a pé, fomos caminhando ao longo do grande esgoto que beira a favela e que se joga no mar, cheio de lixo, único lugar no qual as pessoas encontram um jeito para fazer suas necessidades, até chegar à creche que já está qua-

se terminada e funcionando, ajudada pela Caritas de SP (R$80 mil) e com as ofertas da Missão Belém. Um claro exemplo da caridade dos brasileiros e dos pobres que são capazes de partilhar o pouco que têm. Aí se respira um ar de paz, de recuperação da dignidade humana. Ao pôr do sol, subo na torre das caixas d´água, alta 10m, e contemplo o desolador panorama de tendas e barracas, uma atrás da outra, num lugar que poderia ser a Copacabana de Porto Príncipe. A obra do padre é a única que dá dignidade e eperança a este povo sofrido. Volto para casa pesa-

saroso, mas com uma alegria imensa no coração: a de ter visto como a fé é capaz de transpor montanhas e é capaz de dar sentido e futuro a este povo amado.

………………………………………………………………………………………


Diário 01

Terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Às 3h da manhã, acompanhado gentilmente pelos padres Daniel e Raju, deixo o Pime em direção a Guarulhos, aonde chegamos meia hora depois. Entrando no aeroporto, logo encontro o pe. Gianpietro Carraro, com os amigos da Missão Belém, já na fila do check-in, despachando as numerosas malas cheias de material para a evangelização. Vejo um pacote grande, com a anotação em vermelho “FRÁGIL”. Parece uma geladeira e pergunto a Chiara, irmã do padre, se é mesmo.  Ela  me  responde,  sorrindo,  que  é

uma imagem de Nª Srª para a paróquia em que está a Missão Belém, no Haiti, a pedido do pároco. Somos oito: sete da Missão Belém, entre os quais quatro novos missionários  que lá irão ficar, Sandra, Diogo, Junior e Olga, e eu. Aproveito para uma breve entrevista com alguns deles. Em todos, a alegria de poder doar a vida pela evangelização dos pobres. Alguns têm um passado doloroso, vivido no mundo  das  drogas, mas agora, após terem  encontrado  Cristo,  tudo  mudou.

Estão a caminho do sacerdócio. Já completaram a filosofia e agora vão tentar a teologia no Haiti e o trabalho da missão com os mais pobres. Pergunto se não têm medo. Um deles, para minha grande surpresa, cita uma frase do bem-aventurado padre Clemente Vismara (missionário do Pime que trabalhou por mais de 60 anos em Mianmar, antiga Birmânia), dizendo que “a vida vale a pena ser vivida quando doada e que coração alegre o Céu ajuda”!

Chiara nos presenteia com um capuccino às 4h30 da manhã. Às 5h, passamos pela alfândega e às 5h40 embarcamos no avião da COPA Airlines, a única empresa aérea que faz a coligação com Port Principe. É uma companhia panamenha muito acolhedora. O controlador de bilhetes nos deseja uma boa viagem, de uma forma cordial, sem formalidade. Parece até que ele está participando da Missão Belém. Talvez, vendo estes jovens com o crucifixo ao pescoço e a irmã com o lencinho na cabeça e suas humildes roupas, sinal de sua pertença a Cristo, percebe algo de grande. Pe. Gianpietro logo me entrega um dossiê interessante sobre Wharf Jeremie, o porto “fantasma” onde está a Missão Belém e me mostra o cronograma da nossa es-

tadia; tudo planejado, mas também me convida a estar aberto às novidades do Espírito Santo. Sinto que será algo de muito profundo e importante para mim. Um clima de alegria, fé e confiança está em todos. Conosco viaja também o sociólogo Roberto Marton, da Fundação Getúlio Vargas, que trabalha no setor de projetos e que está visitando o Haiti, pois foi conquistado pela Missão Belém. Às 6h10, pontualmente, o avião deixa a pista de Guarulhos e, em poucos instantes, mergulha nas nuvens que cobrem a cidade, ainda sonolenta, mas animada pelo Carnaval paulista.

Após 6 horas e meia de voo, chegamos ao Panamá: hora local 9h38, ganhamos, assim, 3 horas, pelo fuso horário. Na viagem, conheci os meus vizinhos: um casal brasileiro, rumo ao México, Cancún, cidade turística. Eu lhes explico o motivo da minha viagem rumo ao Haiti e ficam surpreendidos. Duas horas depois, às 14h50, sempre com a COPA Airlines, partimos para o desejado Haiti, num avião Embraer 190, com capacidade para 106 pessoas. Ao entrar no avião, já dá para perceber as feições negras do povo haitiano, e um ar meio sombrio, quase um presságio daquilo que nos espera neste país assolado pelo terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas.  Finalmente, duas horas depois, sobrevoando o esplêndido mar do Caribe, entrevemos a ilha de Hispaniola, onde o Haiti ocupa um terço da área, a oeste, e a República Dominicana ocupa dois terços, a leste. O piloto anuncia que daqui a 9 minutos iremos aterrizar e que a temperatura é de 32 graus. Com o pe. Gianpietro, estou escutando uma música de Maria, após a reza do terço. Parece-me uma feliz coincidência ver, pela primeira vez, o querido Haiti sob a  proteção  de  Maria.

Às 15h o avião toca o solo e uma emoção toma conta da gente. Já pelas janelas, pude observar a extensão da cidade com quase três milhões de hab., com muito verde e com casas cinzentas, da cor dos tijolos feitos de cimento e ainda marcadas pelas feridas do terremoto. Na descida do avião, um grupo de músicos nos acolhe com os instrumentos típicos e com um rosto sorridente, anunciando o próximo evento do Festival de Música Jazz na cidade. Na chegada, conheço um padre haitiano que estava no nosso voo, vindo de Porto Alegre, oblato de Francisco de Sales. É um padre jovem, que se dispõe a ajudar a Missão Belém. Encontro também duas irmãs espanholas, que há oito anos estão aqui. Como é bela a missão que aproxima o povo em nome da pura  caridade!

Após o controle dos passaportes e a chegada das malas, todas em perfeita ordem (são mais de cinco carrinhos cheios com as malas da Missão Belém), e após ter encontrado os missionários que nos esperavam, fortemente comovidos, vamos, em dois carros, ao seminário dos escalabrinianos, onde o pe. Giuseppe, um missionário italiano há muitos anos no Haiti, nos espera. Ele nos preparou uma casinha acolhedora, como ponto de referência para a nossa estadia. No trajeto do aeroporto até o seminário, a realidade dura e crua do povo haitiano: lixo na rua, estradas esburacadas, trânsito caótico, casas sinistradas e em recuperação, barracas e tendas azuis trazidas pela ONU na ocasião do terremoto, ainda habitação para muitas pessoas, povo na rua,  mercadinhos  e  vendas

em qualquer lugar e as típicas conduções, tipo Van, todas coloridas e alegres. Apesar do sofrimento causado pela pobreza e pelo terremoto, percebe-se um povo digno, que caminha e luta de cabeça erguida. Quando aceno para saudar, logo me respondem com um belo sorriso. Na chegada ao seminário, conheço este extraordinário padre que está construindo casinha para amparar irmãs, padres e voluntários que aqui querem ajudar, além de uma pequena fábrica de tijolos para ajudar o povo a reerguer as suas casas. O que não faz a criatividade movida pela caridade!
Após o jantar, preparado pelas meninas da Missão Belém, e a celebração da Santa Missa, recolhemo-nos, preparando-nos para enfrentar, amanhã, a dura realidade de Wharf Jeremie, onde se encontra a Missão Belém, no coração dos pobres.

Encontro vocacional...

Venha participar conosco do nosso encontro vocacional que acontecerá

 do dia 27 de abril, ao dia 1 º de Maio,em Jarinú a partir das 20h , Jesus te espera para viver nesses dias:

- Muita oração

- Santa Missa

- Adoração

- Partilhas

- Dança e teatro

Você não pode perder essa oportunidade e ouvir a voz do Senhor

Venha fazer seu projeto de vida com Deus!!!

maiores informações ligar para: (11) 2694-2746 falar com a Cícera.

Inscreva-se online:

(Italiano) Jeshuà – Modena...

(Italiano) PELLEGRINAGGIO-RITIRO SPIRITUALE DELLA ...

VASO DE BARRO – FEVEREIRO 2012...

(Italiano) Date prossimi RUAH-CANA-JèSHUA...

VASO DE BARRO – JANEIRO 2012...

  VASO DE BARRO - JANEIRO 2012 (PUB)


  VASO DE BARRO - JANEIRO 2012 (PDF)

Missão de Rua – Janeiro 2012...

Venha participar da missão de rua que acontecerá do dia 1 ao dia 8 de janeiro.
Nos encontraremos dia 1º às 18 horas no “barraco”, na rua nelson cruz, nº10 – belenzinho
Maiores informações ligar para: (11) 2694-2746

Inscreva-se online:

(Italiano) Iscrizione Missione Belem anagrafe dell...

Articolo non disponibile nella lingua corrente

(Italiano) INCONTRO CON IL PAPA...

Articolo non disponibile nella lingua corrente

(Italiano) Formazione con Pe. Giampietro...

Articolo non disponibile nella lingua corrente

(Italiano) CRISTOTECA...

(Italiano) Ultimissime...

Articolo non disponibile nella lingua corrente

(Italiano) Messaggio per i pellegrini...

Carta agosto 2011...

Articolo non disponibile nella lingua corrente

Carta de Julho 2011...

  Carta Julho 2011

Carta de junho 2011...

  NOVUM JUNHO 2011

Carta de Maio 2011...

  Carta Maio 2011

Carta de Abril 2011...

  Carta abril 2011

ENCONTRO VOCACIONAL...

PAZ E ALEGRIA!!!
 
O Senhor me ungiu e consagrou para levar a boa nova aos pobres. (Isaias 61)
 
VOCÊ NÃO PODE PERDER ENCONTRO O ENCONTRO VOCACIONAL NA MISSÃO

BELÉM COMEÇA NO DIA 4 DE MARÇO AS 8HS, E TERMINA NO DIA 8 AS 18HS. 
 
JESUS ESTÁ ESPERANDO POR VOCÊ,
 
 
NÃO PERCA A OPORTUNIDADE DE SER FELIZ!!!!!
 
Deus abençoe

Ir. Gilson

Contato (11) 26942746 confirmar a presença por favor

Carta Março 2011...

  Carta Marso

Carta de NATAL 2010...

  Feliz Natal, Missão Belém, de seus irmãos de Haiti!

  Feliz Natal, Missão Belém, de seus irmãos de Haiti! (PDF)

(Italiano) Concerti Pro Missione Belém...

Carta Dezembro 2010...

Para visualizar a carta completa clique :

  CARTA DEZEMBRO 2010 (PDF)

HAITI-MISSÃO BELÉM...

Leia o texto completo click aqui

O menino Jesus na cólera : primeiros passos da Missão Belém no Haití

5 nossos Missionários, chegaram no Haiti no dia 7 de novembro e se depararam com a chocante realidade da terrível doença da cólera, cujo foco, em Port au Prince, é exatamente a nossa Missão de Waf Jeremie. Como vocês sabem, 150.000 pobres vivem em cima de um lixão, sem um banheiro, sem higiene, sem água, sem energia elétri (more…)

(Italiano) Invito Cena Povera Pro Haiti...

(more…)

« Previous Entries